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No penúltimo domingo visitei com a família a cachoeira toca de cima, em brumadinho. Nas rochas do Paraopeba, alem das belas águas, estava encravada uma forte lembrança: A morte do meu amigo Keudes.

Terrível contradição: As mesmas águas nos trazem paixões e nos leva amores.

Naquele feriado, as águas possibilitavam uma multidão receber gratuitamente centenas de peixes no bairro belo-horizontino chamado Bom Fim. Do outro lado da cidade, rumo a um fim não muito bom, as águas destruíram tudo.

Todavia no fim, nem as águas e nem esse mundo saem vencedores. O amor é mais forte que a morte e que as muitas águas, testemunhavam Salomão, e agora eu: Keudes permanece como um grande amigo e portentor de minha maior ternura.

Assim a chuva devasta e floresce. O remédio amarga e cura. A cruz mata e salva. O amigo beija e se vai. È a sexta de todas as paixões. Tão dolorida e tão rica de amor, vida e amizade.

Naquela tarde entendi que não me cabe ressentir-me da vida ou das águas. A mim só cabe brincar e talvez, com gratidão, sentir saudade.

Catador de papel

Eu era ladrão de cata-ventos, confesso.

Cata-ventos, barcos e aviões de papel.

Eu voava em ventos.

 

Mas tudo mudou quando te vi chegar.

Meu mundo mudou, quando te vi chegar.

Tudo que quero,  está perto de você.

 

Ao teu olhar…

Meus barcos abriram as velas,

E viraram cartas.

Meus aviões, poesia.

E ainda me sinto voando…

 

Pois tudo mudou quando te vi chegar

E até acenei pra te chamar.

Você é tudo que eu  sempre quis.

 

Ainda roubo  cata-ventos, confesso.

Cato  ventos e guardo versos

Que me contam de você.

 

Nesse meu  sonho,

Eu te tenho em poesia.

Eu brinco.

 

E ainda sem acordar,

Abraço  seus versos.

Abraço você.

O que é ser Igreja?

A pergunta do título é pertinente.

 Bom, dentre várias definições um tanto mais elaboradas teologicamente, acho a do vídeo abaixo a mais simples.

E por isto, PERFEITA.

Desafio também perfeito?

Vivenciá-lo no dia a dia.

Perguntado sobre o porquê de construir casas, respondeu o João de Barro:

Por que é isto que sei fazer.

 

Nos primeiros anos da década de 40 foi publicado o primeiro livro infantil de Mario Quintana que recebeu o nome de Batalhão das Letras. Segundo o Instituto Reneguenom o mesmo foi desaconselhado pelos mentores da Secretaria de Educação e Cultura, desgostosos que ficaram com uma certa quadra de versos que estavam no livro. Fizeram isto talvez por acharem a tal quadra perigosa, capar de  incentivar as crianças a adotarem maus costumes, o que em si, é inaceitável para um livro infantil.

O fato é que apesar das ressalvas, o tal livro fora publicado.  A merda, perdão, urina, estava irremediavelmente feita e apta a contaminar com seu desejo de travessura os corações das futuras gerações de crianças.

Décadas depois, no que era pra mim um dos lugares mais aconchegantes da minha infância, o colo do meu tio Cadim, o previsto pela Secretaria de Educação aconteceu. Meu tio deixou escapar a tal quadra de perigosos versos:

 

Com x se escreve xícara.

Com x se escreve xixi.

Não faças xixi na xícara, menino.

O que irão dizer de ti?

 

Na minha terra idade, aquilo foi uma festa. Ri até soluçar. Repetia os versos para todos que via. Coragem de urinar na xícara não tinha. Pra falar a verdade, nem precisava. Só o fato de recontar o verso já era pra mim uma aventura. Uma travessura gostosa de fazer.

Havia descoberto para sempre o poder das palavras, a arte de transverter a realidade com outras realidades que nem reais são. Nascia assim meu gosto pela poesia.

Esse X transformador do verso, capaz de criar realidades diferentes, uni-las numa mesma dança, vinculá-las a mim sem me dar  o direito de me vincular a elas,  sim, este X que da nova roupagem a velhos fatos, me seduziu.

Cresci apaixonado pelo verbo. E ainda hipnotizado por esta mágica poética de despretensiosamente inventar mundos, posso dizer:

O x do verso, assim como minha origem, é também o x da questão, ou melhor, o x desta questão que faço por recomeçar a escrever publicamente, ainda que nunca haja publico algum.

Decidi escrever por que gosto de fazer isto. Gosto de relembrar mundos que eu mesmo inventei – e as palavras permitem isto –  descobrir no fio do dialogo um doce jeito de transgredir, criar personagens eternos,  criar novos olhares, tornar mais belo qualquer coisa.

Como nos verso do Batalhão das letras, literatura pode ser por vezes uma merda.

Inevitável, confesso, é não faze-la.

Mas tudo que espero nesta minha jornada é talvez, como Quintana, aprender desenhar. Quem sabe, também  suscitar afetos. Reinventar amores.

Descobrir velhos motivos para voltar a brincar.

 

“Os que ali estavam disseram outra vez a Pedro: Verdadeiramente tu és um deles, porque és também galileu, e tua fala é semelhante. “

Evangelho segundo  Marcos 14:70

 

 

Sou mineiro da gema, mas, minha família é toda ela das extremidades do sertão mineiro. Vem todos de um lugar antigamente conhecido como Nossa Senhora da Conceição da Boca da Caatinga.  Hoje conhecida pelo doce apelido de Pedra Azul.

Difícil para um homem é negar sua origem. Não carregar traços de seu passado.

Afinal, se mesmo aprisionada no coração do Vale do Jequitinhonha, Pedra Azul queria ser fé e voz da terra, lábios da vegetação que lhe cobre o corpo, então, devo confessar:  sou culpado do mesmo sonho. Sou também filho deste povo.

Fé e voz, de tudo isto levo um pouco. Digo isto, pra não dizer que é tudo que levo. A única coisa que levo.

Destino traçado na origem, fui encontrado pela profecia:

 

Voz que clama no deserto. Isaias 40:3

 

Poderia ser voz que clama na raro verde da Caatinga. Não faria diferença. Restaria ainda algo a ser ouvido em mim, por mim mesmo. Restaria o timbre desta minha inquieta  alma. Restaria o desejo de prosear por tardes inteiras… mesmo na escassez de ouvintes deste meu sertão. Restaria o choro, a musica, a poesia, a Voz…

 

Inclua aí, todo que amo e sou.

 

Meu desejo pra esta minha jornada?

Bom. Que eu possa morrer como os passarinhos de lá.

Cantando…